Holambra (5): A vida religiosa

Mesmo com tanto trabalho para construírem sua nova ‘terra natal’, os imigrantes holandeses não deixaram de trabalhar também, na área social e religiosa. Formaram comissões de voluntários para todas as atividades, tanto na área produtiva, como lazer, saúde e religiosa.

As primeiras missas foram rezadas na escolinha da professora D. Lourdes, construção hoje lembrada como a antiga fábrica de mandioca. Foi lá celebrado o primeiro casamento duplo, do Sr. Palmen e Sr. Koopman. Esse casamento custou ao Sr. Wim Welle  (Calça Curta), o seu único terno trazido da Holanda, pois ele ajudou o Dr. Arlindo a desatolar seu carro da lama, sujando-se todo. E como ‘bom solteiro’, guardou o seu terno ainda cheio de lama, no armário, lembrando-se dele após um ano, mas já tarde, pois as baratas e traças haviam se deliciado com a sujeira.

Em abril de 1949, com o aumento de fiéis exigindo um espaço maior para a celebração de missas, o açougue desativado do frigorífico Armour passou por reformas para abrigar a nova igreja. Durante esta reforma, perceberam que a estrutura existente, não suportaria. Na opinião do Sr. Miltenburg, seria melhor demolir e começar de novo, no entanto a decisão era do Sr. Heymeyer, que foi o idealizador do projeto de imigração ao Brasil. Só deixaram então, em pé, um pequeno puxado onde as Irmãs do Santo Sepulcro, religiosas imigrantes, lavavam suas roupas e o Sr. Piet Wagemaker talhava o leite para fabricação de manteiga. Levantaram paredes de tijolos e barro. A técnica do barro era muito conhecida  pelos brasileiros, mas muito estranha para os holandeses… Antes mesmo de colocarem o telhado, caiu uma forte chuva, fazendo as paredes dançar como gelatina. O susto foi grande, mas no final, acabou tudo bem.

Assim que a reforma ficou pronta, chegou o Padre holandês Sijen, trazendo um caminhão “Bedfort” com a bagagem das Irmãs do Santo Sepulcro, contendo altar, bancos de coro e imagens. Com tudo isso decoraram a igreja. O Padre Sijen também não perdeu tempo, decorou o altar com uma belíssima pintura de Cristo e seus Apóstolos na parede. A Irmã Maria Gemma completou a decoração, pintando flores nos espaços das figuras. No início, os fiéis se sentavam em bancos improvisados de tábuas e caixotes de batatas. Mais tarde, foram fabricados bancos definitivos na serralheria do Sr. Aaldering.

Pouco tempo passou e novamente, a igreja ficou pequena. E cada vez mais os  brasileiros começaram a participar das missas.  Muitos fiéis assistiam a missa pelo lado de fora, na porta. Conclusão: nova reforma! E mais outra!

Entre uma reforma e outra, construíram um altar ao ar livre, debaixo de uma majestosa ‘ Paineira’. Este espaço, a comunidade utilizava para as missas especiais como as da festa da colheita, Páscoa, natal, teatros e encontros religiosos.

Os primeiros casamentos de holandeses ocorreram logo nos primeiros meses de colonização, início de 1949. Irmãos de uma família casavam com irmãs de outra. Alguns conhecerem seus cônjuges, na viagem de imigração, abordo dos navios, que duravam em média 25 dias. Casamentos entre holandeses e brasileiros eram raros, principalmente da mulher holandesas com o homem brasileiro. Diziam ser devido ao contraste cultural. Mas depois dos anos ’80, esse tabu deixou de existir e os casamentos se tornaram mais frequentes.

Finalmente, em 1963, sob o comando do Padre Paulinnus, uma nova igreja seria construída, próximo ao clube. O projeto inicial seria uma igreja em formato de cruz. Mas por falta de dinheiro, a comissão de citrus resolveu não construir os braços da cruz. Com o trabalho de muitos, como os senhores Aaldering, Henk Klein Gunnewiek, Basílio, Bernardo Hulshof, Wim Welle, Henny Ten Buuren entre outros, o projeto tomou forma. O Sr. Ton Geur decorou o fundo do altar com vitrais coloridos e, finalmente, em 1966 ela foi inaugurada e denominada ‘Paróquia do Divino Espírito Santo’. A Igreja antiga, onde muitos se casaram e lá batizaram seus filhos, seria transformado em depósito da cooperativa, para a tristeza de muitos.

Por volta de 1972, o Sr. Nabuurs, sem ninguém saber, providenciou a vinda de três sinos. Foi então, erguido uma torre para eles, com recursos provindos da venda de terras dos padres, para o Sr. A. van Vliet. Os sinos lá foram pendurados e estão até hoje. Durante trinta anos, os sinos foram badalados pelas mãos do Sr. Dirk Bruins, mais conhecido pelo apelido de ‘Sacrifício’ (Parte 3). Apelido este que ganhou quando foi a pé, da Holanda até Roma, visitar o Papa, mesmo ele sendo protestante. Fazia sol ou fazia chuva, era dia ou noite, o Sr. Sacrifício não deixava de entoar os sinos em todas as missas, sendo de casamentos, batizados, enterros ou mesmo os de rotina. Ele vinha de casa até a igreja, percurso de quase sete quilômetros, na maioria das vezes, de charrete ou trator, pois carro ele não tinha. E dava carona para a sua esposa, atrás do trator, acomodada em uma grande cesta de ferro, do tipo usado para roupa suja. O Sr. Sacrifício se tornou figura marcante em nossa história, com uma espessa barba grisalha, sorriso angelical, bochechas vermelhas, sempre alinhado em seu terno azul marinho e calçando os verdadeiros tamancos de madeira, também azuis para combinar com o terno.

Hoje os sinos são comandados eletronicamente acompanhando a era tecnológica. E poucas são as vezes que nossa igreja se torna pequena, infelizmente! Apenas em datas como Natal e Páscoa ou em enterros, que vemos pessoas do lado de fora, sem conseguir entrar.

Os falecidos após missa de corpo presente, eram na maioria, enterrados no cemitério de Jaguariúna. Com a colaboração da Polícia Rodoviária fechando a SP340, em grande cortejo, todos que dispunham de transporte, seguiam para o enterro. Com o aumento populacional da comunidade, e consequentemente, o aumento de óbitos, em 1980 com o falecimento da Sra. Hogenboom, esposa do primeiro presidente da cooperativa, foi inaugurado um cemitério defronte a igreja, no estilo de jardim, o que não agradou a muitos, por considerarem que lugar de cemitério é ‘longe das vistas’! Mas essa é uma outra história!

Na próxima sexta feira, a Parte 6 –  “A Saúde”. Até lá!

Pesquisa e texto : Catharine Welle Sitta. Fotos: Wim Welle.

Mais fotos na pagina do Facebook da Catharine Welle Sitta.


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