Holambra (6): A saúde

No final de 1948, a então Fazenda Ribeirão já tinha alguns moradores imigrantes holandeses, entre eles os senhores W .Miltenburg, T .Cruijsen, W. Welle, L. Koopmans e J. Palmen. Como eram solteiros e pouco ou nada tinham a perder, vieram na frente para prepararem as moradias, para a chegada das primeiras famílias da Holanda.

Na Fazenda Ribeirão, além da casa sede da fazenda, havia alguns poucos barracões e algumas casas de pau a pique. Estas, construídas de forma rústica com bambu entrelaçado e barro, eram sujas, sem piso, sem janelas, sem energia ou água e totalmente sem conforto. Os solteiros eram encarregados de ‘melhorarem’ estas moradias, no melhor possível.

Os senhores Miltenburg e Cruijsen, por intermédio de um Padre de Jaguariúna, procuraram contato com o Dr. Arlindo Jacob, médico clinico e obstetra.

Esse contato seria para prevenir qualquer eventualidade ou emergência. Mas o Doutor, admirando os holandeses pela coragem de terem imigrado para um total desconhecido, prontificou-se de imediato e com muito entusiasmo, a ajudá-los.

Em breve, a Fazenda Ribeirão receberia grande numero de famílias e estas, com grande número de filhos. Algumas das famílias numerosas que atravessaram o Atlântico de navio, por longas semanas, já vieram  com 10 a 12 filhos, e algumas mulheres com seu filho no ventre.

No inicio, sempre que necessário, o Sr. Toon Graat era o encarregado em buscar o médico, de jipe, em Jaguariúna. Mas não demorou, com a população aumentando rapidamente com a vinda de mais imigrantes, como também, o nascimento de seus filhos, o Dr. Arlindo começou a vir com seu próprio carro. Mesmo assim, o Sr. Graat ficava de plantão na entrada da fazenda, com um trator ou Jeep, para eventualmente guinchá-lo fora da lama. Isso não tirava o sempre bom humor do médico, que descia de seu carro e ajudava a desatolar, mesmo se sujando todo.

O médico não falava holandês e pouco, ou nada, os holandeses falavam português. A solução primeiramente encontrada foi do acompanhamento do Sr. Miltenburg, como ‘meio’ intérprete, provocando situações muitas vezes, embaraçosas e cômicas. Certa vez, uma recém chegada senhora holandesa, entrou em trabalho de parto. O médico entrou no quarto da futura mãe e o Sr. Miltenburg ficou do lado de fora, na janela e embaixo de uma forte chuva, para tentar traduzir os gritos e gemidos da mulher para o médico e as orientações do médico para a gestante. A mulher, deitada em sua cama, sofrendo as dores do parto, ainda se preocupava em segurar um guarda chuva em suas mãos, para fugir das goteiras do telhado. Enquanto isso, o futuro papai se encontrava sentado em cima do fogão a lenha, pois era o único lugar seco da casa.

Costumavam dizer que, naquela época, as crianças já nasciam batizadas, antes mesmo do padre chegar, por motivo da água da chuva invadir as casas, pelo telhado precário ou mesmo, pelas frestas nas paredes de ‘pau-a-pique’. Era comum também, receber visitas dentro de casa, com o guarda chuva aberto. Mas de forma alguma, perdiam o bom humor.

Logo a Irmã Ancilla tomou o lugar do intérprete. O Dr. Arlindo atendia seus pacientes de casa em casa e posteriormente, na casa da enfermeira Annie Geene, onde foi improvisado um consultório.

O Dr. Arlindo logo se tornou um ‘médico amigo’ e um ‘amigo médico’. Mesmo não entendendo o idioma, era confidente de muitos imigrantes que, a ele desabafavam seus males e lhe confidenciavam as saudades de familiares e da terra natal. A saudade era a causa da grande maioria de doenças! Só o olhar carismático, simpático e humano do doutor, já funcionava como remédio ou consolo, não necessitando a troca de palavras no mesmo idioma.

Também trabalharam com o médico, ao longo dos anos,  as enfermeiras Toos van Lieshout (Miltenburg), Annie van Lieshout (Kievitsbosh), Floor Koper (Welle), Elly Paulussen, Mathilda Gruyter (van Kampen) e Catharina Plagge, mais conhecida como D. Tinny, entre outras.

A D. Tinny serviu longos anos à comunidade, enfrentando grandes dificuldades, principalmente o transporte, devido as distâncias entre os sítios. Hora ia a pé, hora de charrete. Algumas vezes na traseira de um trator, segurando se na cintura do motorista. Este sofria a cada solavanco dos buracos das estradas precárias, pois seu estômago ia sendo comprimido pelas mãos da enfermeira. Chegando ao destino, D. Tinny não sabia se atendia primeiro o paciente doente, ou o motorista que chegava passando mal. Após muitos anos, o Sr. Henk de Bruin deu a ela algumas aulas de direção, em um jipe da Cooperativa. Este seria seu novo veículo. O que o Sr. Henk esqueceu, foi de ensinar que o jipe tinha 4 marchas, pois ela só usava a segunda e quarta marcha, e de longe podia se ouvir sua chegada.

Muitas crianças nasceram pelas mãos da enfermeira Tinny. Já maiorzinhos, após uma consulta, as crianças sempre recebiam uma bala ou pirulito, que a enfermeira guardava em sua bolsa ou gaveta. Para crianças mordidas por cachorro, após o longo tratamento doloroso de trinta injeções em volta do umbigo, o Dr. Arlindo presenteava o paciente com uma bola de futebol. Não tem quem viveu a época da D.Tinny que já tenha se esquecido da dor sentida pelas injeções de agulha grossa, que ela aplicava.

Durante os quase trinta anos como o ‘amigo médico’, o Dr. Arlindo se dedicou muito à comunidade da fazenda e nunca aceitou remuneração, mas era pago com laranjas e galinhas. No entanto, teve reconhecido o seu dedicado trabalho na colônia, sendo honrado pelas autoridades da Holanda, recebendo em 1959 uma medalha oficial holandesa, na ordem de Orange de Nassau. Uma  honraria muito merecida!

Na próxima terça feira a Parte 7 – “Cultura, Esporte e Lazer”.  Até lá!

Pesquisa e texto : Catharine Welle Sitta, Fotos: Wim Welle


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