Holambra (3): Integração de Povos

Antes de Holambra ser fundada, as terras da então Fazenda Ribeirão, pertenciam ao Frigorífico Armour e eram utilizadas para reengorda do gado, que vinha de outras pastagens do interior de São Paulo e seguia para o abate. Quando a Armour se mudou, junto com ela levou a maioria de seus funcionários.

Assim, quando chegaram os primeiros imigrantes holandeses, para formar a nova colônia, encontraram poucas famílias de colonos brasileiros morando na fazenda. Entre eles, estavam as famílias do José Martins conhecido como “Dente de Cavalo”, Zé Libano, João Antonio, Lazinho e João Fogaça, Luis e Zé Lima e Leandro Gonçalves.

A integração entre os holandeses e os brasileiros, foi rápida. Havia muito trabalho a ser feito! A mata existente em toda a área da fazenda que não era pastagem, tinha que ser derrubada e limpa, o que levou mais de dez anos! A terra tinha que ser trabalhada e cultivada! Casas e galpões tinham que ser construídos. Em resumo, havia muito trabalho, mas havia sobre tudo muita força de vontade, por parte de todos e principalmente fé e esperança, para começarem uma nova vida!

Mas o descanso e um pouco de lazer, era merecido! Nos finais de semana, a carpintaria se transformava no “Bar do Boon” e todos dançavam juntos ao som da harmônica do Sr. Wim Stapelbroek ou dos discos do Sr. Jacop Schut. Aos domingos, todos iam nadar na cachoeira ou jogar futebol, em algum campo da vizinhança. Para ir a estes jogos, o transporte utilizado era um jipe e um caminhão Bedford. Para a cachoeira iam de trator com carreta ou charretes.

A corda russa era também um dos jogos preferidos e diversão muito procurada, onde geralmente se disputava a força de holandeses contra brasileiros. Esta disputa acabava em um grande banho de lama ao grupo perdedor. Mas segundo relatos, ambos os grupos alternavam a vitória!

Precisava se de muito pouco, para se divertir muito! No entanto, havia um jogo onde o grupo de brasileiros, era sempre o vencedor, o “jogo da pimenta”. Os brasileiros engoliam uma pimenta vermelha inteira sem mastigar e provocava os holandeses a fazerem o mesmo. Estes, sem conhecer o “poder de fogo” da pimenta, mastigavam e consequentemente, queimavam suas bocas, gargantas… Não havia água que lhes aliviasse a dor!

O comercio entre os imigrantes e brasileiros, também começou cedo na fazenda. Os holandeses trocavam uma linda, nova e importada bicicleta por um cavalo, muitas vezes já velho e prestes a se aposentar e ainda assim achavam ter feito um bom negócio!

O problema do idioma não foi impeditivo, para a rápida integração. Mas apelidos logo foram surgindo, para ajudar na comunicação. Para o brasileiro gravar ou pronunciar os nomes holandeses, era quase impossível! Então surgiram apelidos que ficaram e eram bastante originais, como: ‘Espirito Santo’, tradução ao pé da letra do Sr. Wim van der Geest; ‘Cabeça Chata’ para o Sr. Toon Krabbenborg como uma tradução física por ter uma cabeça bem grande e achatada; ‘João Choque’ para o Sr. Jan Maandonks que era eletricista da comunidade; ‘Guilherme Calça Curta para o Sr. Wim Welle que foi o primeiro a cortar todas as suas calças devido ao calor; ‘Raposão’ para o Sr. Hermanos Kievitsbosch por ser esperto como uma raposa; ‘Sacrifício’ para o Sr. Dirk Bruins por ter ido a pé da Holanda ao Vaticano, ver o Papa, mesmo não sendo católico; entre outros tantos apelidos “exóticos”. Mas quando os brasileiros se encontravam só entre eles, se referiam aos holandeses como os “cabeças de formigas” devido as bochechas vermelhas do calor.

A confraternização e intimidade entre os dois povos, era muito maior do que todos imaginavam! Exemplo disso, era o “empréstimo” de alguns bens. Eu explico! Aos domingos, todas as famílias holandesas iam à missa de charrete e deixavam estes estacionados à frente da antiga igreja. Na saída da cerimonia religiosa, alguns encontravam os seus cavalos completamente suados e cansados. Eles se indagavam do por quê? Entre eles comentavam ‘Enquanto rezamos, nossos cavalos pagam nossos pecados!’ Mas quem me contou a explicação, foi o ‘Dente de Ouro’ Sr. Antonio Alves. Ele relatou que, enquanto os donos rezavam, alguns brasileiros tomavam a charrete “emprestada” para irem tomar uma pinga na venda do Turco, onde hoje é o Bairrinho, aproximadamente uns seis quilômetros da igreja. E voltavam rapidamente para devolver as charretes no mesmo local, antes da missa acabar. Explicado o suor e canseira dos cavalos!

Os homens em seu tempo livre saíam para caçar. O Sr. Tico Galli, colono brasileiro, lembra que seu companheiro de caça era o holandês Sr. Toon Graat. Segundo o ‘Seu Tico’, os cães dos holandeses eram muito bem treinados, pois ficavam escondidos no mato e só apareciam após ouvirem o tiro, indo então, à procura da caça abatida e traziam a caça para o caçador. Seu Tico conta que, quando morreu o cachorro do Sr. Graat, este mandou fazer uma bolsa com a pele do animal, como recordação. E quando iam caçar, o Sr. Graat levava a bolsa. Após ouvirem o som de uma caça, relata o Seu Tico, o pêlo (da bolsa) se arrepiava. O Sr. Graat então dizia “o cachorro morreu, mas sua pele continua viva!”. O Tico Galli era um ótimo contador de estórias!

Consultando os moradores que participaram da fundação e colonização de Holambra, tanto holandeses quanto os brasileiros, eu pude perceber a grande saudade que sentiam daquele período! Embora tempos difíceis, relataram serem tempos maravilhosos! Todos se expressaram emocionados, retratando o orgulho de terem participado ativamente na formação desta comunidade, hoje uma linda cidade!

Lembrar de um simples pão de consistência pesada, feita pelo padeiro holandês Sr. Martin Gerritsen e que era entregue por charrete pelo Sr. Antonio Alves e pela metade do preço no dia seguinte, é motivo de emoção e saudades!

As lembranças das festas comemoradas embaixo da majestosa paineira, como as missas, as peças de teatro, e os deliciosos churrascos no longo espeto de bambú, trazem a saudade. Tudo era simples, não tinham carro, não havia energia elétrica e muito menos água encanada, banheiros sem privadas, muito trabalho pesado, mas todos eram iguais, brasileiros e holandeses, todos eram amigos! Todos viveriam tudo outra vez, sem querer mudar nada!

Na próxima sexta feira a Parte 4 – Até lá!

Pesquisa e texto : Catharine Welle Sitta. Fotos: Wim Welle.

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